O IF Baiano – Campus Guanambi, por meio do grupo de pesquisa HAFROQI, realizou, no dia 23 de maio de 2026, a I Mostra Científica ELOS – Entrelaços dos Saberes: Ciência e Ancestralidade nos Territórios do Sertão Produtivo. Com o tema “Território Quilombola Lagoa dos Anjos: saberes tradicionais sobre plantas medicinais”, o evento marcou a socialização dos conhecimentos construídos ao longo do curso de extensão Ciência e Ancestralidade: formação em Agroecologia e Saberes Tradicionais sobre Plantas Medicinais no Sertão Produtivo.
Desenvolvida em parceria com a Comunidade Quilombola Lagoa dos Anjos, no município de Candiba-BA, com apoio do Cesol Sertão Produtivo, a iniciativa integrou o Programa Escola Nacional Nêgo Bispo, do Ministério da Educação, reunindo comunidade quilombola, estudantes, pesquisadores, professores e profissionais da educação em torno da valorização dos saberes tradicionais, da agroecologia, da biodiversidade e do cuidado com o território.
A programação teve início com o momento “Aquilombando-se: partilhas e sabores”, destinado ao acolhimento dos visitantes e cursistas. Na sequência, a abertura oficial do evento foi conduzida pelo mestre de cerimônias João Vitor dos Santos Ramos, licenciando em Ciências Biológicas do Campus, seguida da mesa solene com representantes da instituição, da comunidade quilombola e da equipe responsável pelo curso.
















A Mestra dos Saberes Tradicionais Luciene Alves dos Santos Silva, Tia Iyô, ocupou lugar central no desenvolvimento da formação. Guardiã das memórias e práticas ancestrais do Quilombo Lagoa dos Anjos, ela destacou a importância das trocas vivenciadas durante o evento: “o dia 23 foi uma maravilha, foi um saber muito bonito, onde a gente trocou experiência com os professores, com os cursistas e com todo mundo que participou. Eu, como mestra dos saberes, fiquei realizada, porque aprendi muito com eles e também pude ensinar um pouquinho do que sei. Foi aquela troca bonita da universidade com os quilombos, com o pessoal do IF Baiano, um aprendendo com o outro”.
Após a abertura, a Mostra contou com o momento cultural “Reisado: vivências e confluências de um modo de vida”, valorizando expressões culturais populares e formas de transmissão de conhecimento presentes nas comunidades tradicionais. Para Elizângela Souza, cursista e docente do Colégio Estadual Governador Luiz Viana Filho Tempo Integral, a apresentação do Terno de Reis São Benedito representou mais do que uma atividade artística: “Trazê-lo para o interior de uma mostra científica foi um gesto de afirmação: a cultura popular não antecede a ciência nem a decora, ela é, em si mesma, uma forma de produzir e transmitir conhecimento”.
Um dos momentos centrais da programação foi a “Roda de Saberes em Confluência”, mediada por Elizângela Souza, reunindo diferentes sujeitos envolvidos no percurso formativo: Tia Iyô; Wellington Donizet, docente do IF Baiano – CampusGuanambi; Andreia Rocha, gestora do Colégio Estadual de Tempo Integral Jorge Amado, em Iuiú-BA; Naeli, licencianda em Ciências Biológicas; Tia Madalena, artesã, quilombola e cursista; Taís Carolane de Souza Almeida, integrante da equipe executora e estudante de Engenharia Agronômica; e Hildeberto Wagner de Jesus Vieira, professor da rede municipal de ensino e aluno convidado do curso.
A roda de conversa possibilitou a partilha de experiências e aprendizados construídos durante a formação, abordando temas como plantas medicinais, produção de exsicatas, compostagem, hortas medicinais escolares, artesanato e cuidado com os quintais produtivos. As discussões também reforçaram a importância de reconhecer os conhecimentos tradicionais como parte da construção científica. Inspirada no conceito de confluência, de Nêgo Bispo, a atividade evidenciou o diálogo entre ciência acadêmica, ancestralidade e território, valorizando diferentes formas de produzir conhecimento sem hierarquias.
Ao longo do dia, os participantes acompanharam a apresentação de trabalhos científicos em formato de banner, além da exposição de produções relacionadas aos temas do curso. Os trabalhos abordaram saberes quilombolas, plantas medicinais, agroecologia, biodiversidade, território e práticas sustentáveis.
No período da tarde, foram ofertadas oficinas práticas, contemplando produção de sabonetes artesanais, incensos, exsicatas, oficinas sensoriais sobre plantas medicinais, defensivos naturais, composteiras de baixo custo e técnicas de adubação e conservação do solo.
A Mostra reuniu integrantes da Comunidade Quilombola Lagoa dos Anjos, estudantes do IF Baiano – Campus Guanambi, professores e estudantes da UNEB (campi Bom Jesus da Lapa e Caetité), do Colégio Estadual Governador Luiz Viana Filho Tempo Integral e do Colégio Estadual de Tempo Integral Jorge Amado.
O encerramento foi marcado pela certificação simbólica dos cursistas e pelo reconhecimento às pessoas que contribuíram para a construção coletiva do curso, reafirmando o valor das trocas e dos saberes compartilhados.
Para a professora Daniele Trindade, proponente do curso e líder do HAFROQI, a Mostra representou muito mais do que a finalização de uma formação. “O evento consolidou um importante espaço de encontro entre comunidade, escola e instituição de ensino, contribuindo para o reconhecimento dos saberes quilombolas e para o fortalecimento das práticas agroecológicas no Sertão Produtivo”. Inspirada no pensamento de Nêgo Bispo, Daniele destaca que a experiência dialoga com a ideia de “começo, meio e começo”, compreendendo a Mostra não como um fim, mas como abertura para novos caminhos de aprendizagem, fortalecimento comunitário e valorização dos saberes ancestrais.
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